quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

[...]


Orianne F.


não adianta deixar
migalhas
pelo caminho.
não faço questão
de voltar



sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

deambulando com Cesário

Almada Negreiros


falta-me o campo
verde para fugir
à febre amarela
e ao absinto do lado
de dentro do botequim
fin-de-siècle
anacrónico



quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Eugénio revisitado



há um tsunami de estranhamento
que se aproxima
perigosamente
da concha onde
me exílio
deste tempo.

é sufocante o ar que
se respira
são sujas as paredes
secos os animais
esqueléticos os pomares

faz-se tarde
ao amanhecer cada
dia o vento
arrepia as estações
e os violinos
confundem-se
com a miséria
estampada nas calçadas.

mergulhar no sal
da língua é a única
salvação.

domingo, 13 de novembro de 2011

autópsia (αὐτοψία)


αὐτοψία
Paulatina e acentuadamente Theo ia perdendo a destreza vocabular que lhe saltava directamente das mãos para as centenas de cadernos que guardava, numerados e datados, na secretária centenária que o acompanhava desde menino, por via paterna.
Piruetas semânticas que deleitavam uma horda de papa-açordas, aspirantes a leitores privilegiados, que batiam à porta de todos os salões literários, se embebedavam em todas as vernissages, e faziam fila à porta do teatro a fazerem-se a convites desperdiçados e que rodeavam Theo, basbaques, diante de prosas que mal conseguiam ler em voz alta e por isso consideravam eloquentes. Nunca entenderam, portanto, que Theo lhes desconhecia os perfis e tão pouco lhes sentia os perfumes de marca.
Numa tarde invernosa de Novembro, porém, Theo preparava-se para uma leitura pública e ninguém reparou que o seu olhar estava mais distante ainda do que o costume. Pegou nos cadernos que tinha cuidadosamente seleccionado para ler, enfiou-os com pressa na pasta de couro, bastante descosida, e avançou pela sala, curvado mas firme, em direcção à porta de saída.
Cuidaram os clientes literários tratar-se de uma performance desconstrucionista e voltaram-se nas cadeiras, espreitando avidamente o desfecho exemplar do Apolo das letras,
Mas Theo afastava-se cada vez mais, fustigado pelo vento e pela chuva e desceu as escadas, do passeio até à praia. À medida que se aproximava do mar, os seus olhos regrediam da lonjura em direcção às ondas atormentadas até que um sorriso se foi desenhando nos lábios. Estava a conseguir, enfim, um diálogo único, estava de novo a escrever de coração um texto surpreendente, com palavras que tinham asas nos pés.
No seu entusiasmo crescente, foi avançando até perder o pé, até que a água lhe cobriu a cabeça e lhe inundou os pulmões...
Felizmente nem sequer teve tempo para ouvir os aplausos do público fiel.


sábado, 5 de novembro de 2011

pescador de memórias


pareceu-me ouvir-te
do lado de lá do tempo
do lado de cá do rio
onde as nuvens
se desenham maçãs
as gaivotas me tropeçam
nos olhos e o barco
fica na barra
incapaz de fotografar
tempestades.


resta o poema
límpido de lágrimas
para sobreviver
à dor do mar.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

baptismo


R. Magritte, La mémoire, 1948


hoje morreu-me
mais uma célula
instalou-se um ponto negro
na borda da memória
um cancro pronto
a estender as metástases
pelo álbum amarelado
de retratos sépia
hoje encurtou-se o tempo
que me separa
da ausência
afogou-se a lágrima
num bolso roto
desfigurada pela
secura dos olhos.
aqui
vou deixando migalhas
paulatinamente
dispostas a indicarem
o percurso
até ao cais
do poente


domingo, 23 de outubro de 2011

anacronismos


Inês Marques Gomes


1.
estava seco
o verso da folha
quando caiu uma gota
de chuva.

não chegou a tempo
de matar a sede.

2.
a mão que nunca conheceu
o travo da terra
é incapaz de afagar
um rosto só.

3.
há uma sabedoria
só de rugas e de kairos
para perceber que
um dia de sol é
igual a um dia de chuva.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Confissão

Jeronymus Bosch


Não.
Não sou uma ordeira
Mente indignada
Que vai beber uns copos
Na hora da despedida.
Prefiro-me Antígona desempregada
Diante de uma plateia vazia
Já que não são estes os tempos
De uma justiça de sangue.
Não.

[Despudorada contarei
A quem queira ouvir-me
Que o sol também pode ser azul
Ou podem voar os peixes
Sem ser num quadro de Bosch.]


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

mundo meu

04-10-11 - o meu fim de dia


desmoronou-se
enfim
a minha casa.

ficam paredes
para trás, portas e janelas
ficam soalhos
e estantes
fica muito bric-à-brac
e espelhos também.
ficam gatos e sofás
escrivaninhas
e máquinas de costura
ficam quadros e
cortinas ficam
fotografias e cadernos.
- ficam casas -

agora tenho
o mundo para habitar
estes olhos cansados
e um corpo curvado
as mãos menos
ágeis, mas a alma
bem curtida pelo tempo
e um coração aberto ao sol.

já não preciso
de roupa nem artefactos
e o chão é
a minha cama. ou o mar.

(só preciso de respirar)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

olhos meus


Foz do Douro, Porto

                                                                                     (para a Maria Ana)

Um dia
Há-de ser um dia
Eu vou gritar
Por ti
Até me esvair no rio
Que vai entrar no mar:
MAR



terça-feira, 27 de setembro de 2011

ma dame


desnecessárias
as palavras que
inscrevo
na curva da tua cintura,
ma dame,
diluem-se na garganta
do caminho solitário.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

infância



é quando uma andorinha se engana de estação
que percebemos a feliz impossibilidade de afagar o horizonte.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

de regresso a Ítaca


com Kavafis na foz do douro
retardo um pouco mais
o regresso a Ítaca.

gritam de branco
as gaivotas sugerindo
a agilidade do amor
sobre as ondas
outrora safiras
atiradas aos deuses

agora
com Kavafis na foz do douro
é já um corpo tisnado
de sal que apreende de
vagar o sentido de Ítaca.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

tempus


(para a Ana Luísa e a Migui)

tenho um arroz de forno
no meu horizonte
que me sugere
metáforas de afectos
um arroz de frango
com textura de terra
risadas soltas
escorrendo pelo
tinto maduriense
a afagarem-me olhos e falas
fêmeas numa língua
partilhada pelo
signo da amizade
cerzida entre
kronos e kairos.

assim guardarei no
presente do futuro
pedacinhos de ossos
e de lúcia lima
que me alimentaram
o devir antecedente.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

"contrariedades"



não há como designar
com substantivos abstractos
os gumes afiados
que rasuram a brancura dos meus dias
ensanguentados de mortos famintos
e de violência londrinamente obscena.
tudo se resume
a uma janela indecorosa
degradada
sobre a cal
e as palavras saem-me
azedas destas
mãos enrugadas
de vergonha.

domingo, 7 de agosto de 2011

para além de


na rota do silêncio
revisitei os meus labirintos
com a lentidão de uma viagem homérica.

perguntei por mim
às oliveiras e riachos
às sombras dos chaparros
e todos confirmavam
o meu desaparecimento.
nem novas nem sussurros
ou palavras soltas.

é bom saber que
a música serpenteia
para lá da humana condição.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011