sexta-feira, 25 de março de 2011

grito

Foto de A. G.

(para as minhas filhas Sara e Inês)

o meu silêncio é de pedra.
agora neste tempo virtual
quando as palavras se soltam
ao acaso dos dias
correndo de boca em boca
sem qualquer valor no mercado
da vergonha desperdiçadas
ao vento como pérolas
atiradas a porcos nem que de Ulisses
se saiba alguma nova
aqui neste lugar estreito
onde as gentes se acotovelam
num bulício histérico
cantando desafinadamente
um suposto caminho de uma
glória epifânica
que há-de parir um rato
agora e aqui num grito
de vísceras e de sangue
carregado de afasia
diante da estuporada memória
que não matarei:
o meu silêncio é de pedra.
só pode ser de pedra.

terça-feira, 22 de março de 2011

da voz

Foto de angela f. marques
(para a Lídia Jorge)


gosto de ler aqueles versos que
trazem uma voz agarrada ao pescoço
uma voz tão sua que me
esqueço até de juntar as letras
as sílabas as palavras e fecho os olhos
para ficar a ouvir-lhes apenas
a melodia ao arrepio da minha pele
enrugada. a voz essa música
do corpo que dá de beber à
dor do texto

sexta-feira, 18 de março de 2011

curva suave

Foto de Fabíola Narvaéz


Todos os dias fazia delicada e lentamente aquela suave curva à esquerda, ouvindo um trecho de Bach. Com sinal de luzes porque tinha de entrar na outra faixa de rodagem.
Naquele dia estava um calor anormal para uma noite de Maio, o leitor de cd parou inexplicavelmente e preocupada com a fuga de Bach, esqueceu-se de fazer o sinal de luzes.
Não pôde contar a ninguém como tinha sido especialmente suave, naquele dia, a curva à esquerda.

quinta-feira, 10 de março de 2011

terça-feira, 8 de março de 2011

carta perdida




Ex.ma sinhora
Doutora dona Ana Luíza Amaral
Minha sinhora, quero neste dia que é nosso dar-lhe os parabéns por ter iscrito outra vezaquele livro que á muitos anos fez de mim mulher feliz e chorei tanto tantas lágrimas que não cabia em mim de emoçom ao ver que havia quem desse valor a mulheres assim como eu sem instrussom e a esfalfarem-se de trabalho para satisfazerem os filhos na boca e os homens na cama. Não fui eu quem o li já se vê mas uma das patroas onde eu andava a dias e a única qualém da paga certa ao fim do mês me respeitava com modos que eu nunca conheci e por isso me contava coisas de livros e políticas que dizia ela que eu não podia deixar que me pusessem o pé em cima do cachasso. Ora depois deu-se o 25 de Abril e foi assim que eu percebi milhor o que ela me tinha explicado e cumprendi ter porque veio o meu irmão de Moçambique com um desarranjo na cabeça quinda agora dura e passa os dias sentado numa cadeira a abanar a cabeça e a gente sem saber o que lhe fazer. Mas eu não estou aqui para lhe falar destas desgraças que toda a gente as tem a fazer-lhe perder o seu tempo e queria só dizer-lhe que chorei outra vez em tantas partes tanto como da primeira, agora a saber que fica tudo explicado para que a gente nova saiba o que nós passamos e não deixem botar por água abaixo as liberdades que agora tenhem e não se ponham pr’aí com cantigas porque um dia levam uma traulitada que deus nos acuda de tal agouro. Por isso vou despedirme com muito agradecimento e admirassão pelo seu trabalho que eu sei reconhecer que é tão importante como lavar a casa dos outros. Desejo-lhe muita saúdinha a si e aos seus, esta que se assina

Maria


segunda-feira, 7 de março de 2011

artes poéticas 1

Foto de Aurore Adeline



um poema sem aditivos
de uma colheita trovadoresca
é sempre a melhor companhia
para uma noite igual a todas as noites.